"A Ritinha, personagem de Isis Valverde, é inspirada na minha vida", conta Mirella Ferraz a sereia que inspirou Gloria Perez

Mirella Ferraz a primeira sereia profisisonal brasileira (Foto: Daniel Dias/Instagram)
Quando a autora Gloria Perez iniciou as pesquisas para a novela "A Força do Querer", ela se deparou com uma série de reportagens falando sobre Mirella Ferraz, a primeira sereia profissional brasileira. A autora, que é conhecida pelo largo perfil histórico dos seus personagens, procurou por Mirella no Facebook e entrou em contato querendo mais sobre o assunto. "Eu logo pensei que se tratava de um perfil fake, mas após uma breve pesquisada fiquei chocada em saber que era ela mesma...", conta Mirella.

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Em um depoimento exclusivo, Mirella conta como sua história inspirou a personagem que será vivida por Isis Valverde na novela que estreia dia 3 de abril, na Globo. Isis viverá Ritinha, uma moça bonita e apaixonada por sereias, que acredita ser filha do homem-boto, uma lenda da região norte do país, um tema que foi abordado pela autora, com outra perspectiva, na minissérie "Amazônia - de Galvez a Chico Mendes" exibida em 2007.

Mirella tem 22,3 mil seguidores no Instagram, 20 mil seguidores no Youtube, onde soma 12,7 milhões de visualizações, onde publica vídeos e começou sua carreira como Sereia. Em seu site, ela vende caudas para adultos (R$ 429) e crianças (390), são oito cores diferentes e são feitas após a compra e envio de medidas.


A personagem da Isis será inspirada em mim, na minha vida. Ajudo na novela há quase 2 anos, desde abril de 2015. A Ritinha (personagem da Isis) é inspirada na minha vida. Isso se deu de um jeito muito louco e inusitado, como tudo na minha vida... Uma bela noite, em abril de 2015, a Gloria Perez me chama no Facebook, de madrugada. Eu logo pensei que se tratava de um perfil fake, mas após uma breve pesquisada fiquei chocada em saber que era ela mesma... Passei meu telefone, ela me ligou e ficamos conversando durante muito tempo. Ela me contou que havia pesquisado sobre o fenômeno do sereismo no Google e encontrou um monte de matérias sobre mim, e ficou encantada de como havia uma menina no Brasil que vivia de ser uma Sereia Profissional.
Depois de escutar a minha história de vida, ela se encantou com o meu jeito, com a minha paixão verdadeira pelas Sereias, pela minha persistência e resolveu fazer da personagem da Isis, uma das protagonistas, ser a minha história e a minha essência. A Rita terá muito de mim. Será uma menina completamente apaixonada pelas Sereias. Uma Sereia de alma, que nessa vida nasceu com pernas, como eu, mas que driblando o destino, faz de tudo para viver o seu sonho. Ela terá também muitas coisas da minha personalidade, como o exibicionismo (algo bem inerente das Sereias, assim como o gostar de provocar, de seduzir) a persistência, a alegria.
Eu comecei a me interessar por Sereias desde que eu nasci, porque eu simplesmente não consigo dizer quando foi. Desde que eu me entendo por Mirella eu já sou assim, eu já falo que sou Sereia, eu já me sinto Sereia. Nem minha família consegue dizer quando foi, porque isso é simplesmente inato em mim, eu nasci assim. Minha mãe até jura de pé junto que minha primeira palavra dita não foi "mamãe" ou "papai", foi, por incrível que pareça, "Sereia". E desde novinha eu não só já sonhava em ser uma, como eu tinha a convicção de que me tornaria a Sereia de meus sonhos.
Sempre à cada uma daquelas clássicas perguntas que fazem às crianças:
- O que você vai ser quando crescer?
- Sereia!", a minha resposta era sempre a mesma.
- Mas como assim, Sereia, perguntavam-me.
- Sereia, oras, de cauda e tudo!, eu sempre dizia.
No final, persisti tanto esse sonho e como sou teimosa, acabei não só virando a Sereia dos meus sonhos, como fiz do meu sonho a minha vida. Mas como profissão sou há 5 anos. No começo não foi nada pensado, como eu disse, quando eu consegui finalmente, depois de muito custo, fabricar uma cauda profissional pra mim, com nadadeira profissional e tecido de mergulho, foi uma realização pessoal. Eu não pensei logo de cara em tornar esse amor em profissão. Pra mim, era apenas o imenso amor que eu sentia em ser uma Sereia. Era como se por toda a minha vida faltasse uma parte fundamental de mim, do meu corpo, e eu a encontrei quando coloquei a cauda pela primeira vez.
Desde pequena eu já tentava fabricar as minhas caudas. Aos 5 anos eu roubava meias-calças da minha mãe para colocar minhas duas pernas numa perna da meia calça e ir nadar assim com as pernas juntas, me sentindo com uma cauda. E depois de maiorzinha ainda usei uma fantasia de Sereia que minha mãe fez pra mim, depois de muita insistência. Mas ainda não estava bom pra mim. Eu queria uma cauda que eu pudesse realmente nadar como eu queria, me sentir a Sereia que eu sou de alma. Por isso que, quando finalmente consegui, isso em 2005, me senti completa!
E a profissão veio como um grande susto e sem eu programar nada. Tudo começou quando meus vídeos começaram a bombar no youtube. Como era uma coisa muito nova no mundo aquilo, as pessoas começaram a acessar e as visualizações a crescer. Eu me lembro que em 2011 chegou a 11 milhões de visualizações e foi assim que a mídia me achou. O "Fantástico" fez uma matéria comigo, que foi ao ar em 2012 e a partir disso alguns aquários começaram a entrar em contato comigo e eu bolei um show de apresentação pra eles. Depois vieram outros convites, cada vez mais, também para eventos em aniversários, parques aquáticos e festas. Um ano depois eu estava publicando meu primeiro livro de Sereias e tudo foi indo, passo a passo.
Montei meu ateliê também, de venda de caudas (o primeiro no país). Aliei meu trabalho com ativismo animal com o Sereismo e comecei a publicar mais livros com o tema das Sereias. E então, desde 2012, há 5 anos, eu vivo exclusivamente de ser uma Sereia Profissional. Sou uma Sereia em tempo integral. Ter essa profissão, pra mim, é algo mágico, é realização de toda uma vida, é persistir um sonho e não largá-lo. Tive que enfrentar barreiras enormes pra isso. Muita dificuldade, muita crítica, muito tudo. Mas passei por cima de tudo e hoje sou uma das poucas pessoas que pode dizer que vive do seu conto de fadas.
Sofri inúmero preconceitos. Hoje em dia, a coisa está bem diferente. O Sereismo cresce a cada dia, com cada vez mais adeptos, seja por cauda da moda ou por identificação verdadeira mesmo. Mas quando eu comecei, sozinha nisso, eu era encarada como uma aberração. Ouvi inúmeras e pesadas barbaridades, como dizer que eu era retardada, que eu não tinha crescido, que eu deveria ser um desgosto pra família, que eu tinha que lavar louça. Foram muitos e muitos xingamentos. Quando eu era noticiada então, em alguma mídia, era até perseguida na internet para ser xingada. Mas eu nunca me importei com nada disso. Desde criança eu já sofria bulliyng por causa disso, por causa do meu amor pelas Sereias. Eu sempre tive um cabelão imenso por causa das Sereias, nunca deixei ninguém cortar. Já andava cheia de conchas no cabelo, nos pulsos, em colares, etc. E todo mundo me xingava por causa disso.
Lembro de uma garota do meu colégio, bastante popular na época, que me perseguia desde que eu era muito nova. E levada todo mundo com ela, para me xingar de brega (por causa das conchas e roupas diferentes de todo mundo que eu gostava, sempre bem sereia) de brombriella (em alusão a "bombril" e meu cabelo cacheado, que na época ninguém tinha no meu colégio, eram sempre cabelos lisos ou alisados e sempre na altura dos ombros). Nunca fui uma garota popular ou com amigos. Pelo contrário, eu sempre fui bastante solitária e isso não me fazia mal algum, pois eu sempre estava em meu mundo particular. Enquanto as meninas, logo na pré-adolescência, queriam ficar socializando com os garotos no clube da cidade, eu já queria ficar nadando o dia inteiro (pois sempre me senti mais em casa na água, que em terra firme) e de um jeito completamente estranho pra todo mundo (com as pernas cruzadas, fingindo uma cauda).
Quando aos 8 anos as meninas queriam a próxima Barbie, eu já me tornava vegetariana por vontade própria, batendo o pé perante minha família, na minha teimosia de sempre... E já escrevia cartas até para a Embaixada Portuguesa exigindo que se parasse com a matança de golfinhos em Arquipélago dos Açores. Enfim, isso é para exemplificar um pouco como é a minha personalidade e porque ela me ajudou a conseguir passar por todas as críticas que sofri por ser uma Sereia. Passei por críticas de praticamente um país inteiro e dei de ombros, vesti minha cauda e mergulhei, na água e no meu sonho.
Achei fantástico [ter a personagem na novela] e acho que será o que mais encantará à todos na novela, o que mais prenderá a atenção. As Sereias encantam mesmo, elas fascinam, não é a toa que até nas lendas elas enfeitiçam qualquer um. E acredito que na novela não será diferente.
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A primeira chamada da novela (assista aqui) foi exibida no sábado (11) mostra justamente a personagem Ritinha nadando com os botos, a sua paixão, mostra ainda o pano de fundo que dará início na novela com a amizade e desamizade entre Zeca (Marco Pigossi) e Rui (Fiuk), a chamada mostra a sedução de Ritinha.

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