Entre black-face e "Segundo Sol": o personagem negro na telenovela brasileira - geraldopost

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Entre black-face e "Segundo Sol": o personagem negro na telenovela brasileira

Entre black-face e "Segundo Sol": o personagem negro na telenovela brasileira

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Antes mesmo da estreia, a novela "Segundo Sol", de João Emanuel Carneiro, estava envolvida em grande polêmica: a falta de negros no elenco da novela que tem sua trama ambientada na Bahia, o estado com maior população de negros no Brasil. O fato foi minimizado pelo diretor geral da Globo, Carlos Henrique Schreder e pelo diretor artístico da trama, Dennis Carvalho. A presença de apenas quatro negros chama a atenção. No primeiro capítulo, a única negra que apareceu na novela, foi para vender um teste de gravidez para Luzia (Giovanna Antonelli), até mesmo o elenco de apoio estava majoritariamente branco, em uma Bahia no auge do axé music.

Mas este cenário vai mudar, já no segundo capítulo o público se envolveu pela história de Roberval (Fabrício Boliveira) o motorista da família Athayde. Criado pela mãe, como 'empregadinho' da família não sabe que é filho de Severo Athayde (Odilon Wagner). Essa descoberta se dará quando Claudine (Cassia Kiss), no leito de morte, vai contar para Roberval que ele é filho legítimo de Severo. Roberval não foi criado como filho de Severo por ser negro e pior, para completar este drama, ele verá sua amada Cacau (Fabíola Nascimento), preferindo o irmão Edgar (Caco Ciocler),  branco, também filho de Zefa (Claudia Di Moura) e Severo, mas criado como filho legítimo por ser branco.

Revoltado e jurando vingança de todos, até mesmo da própria mãe, ele vai conseguir um emprego em uma construção "de luxo", onde vai conhecer e se envolver com Laureta (Adriana Esteves). "A ele fica apenas uma certeza: um dia vai voltar para se vingar de todos que o fizeram sofrer", explica o texto oficial da novela. O autor da novela, João Emanuel Carneiro explica, o enredo da novela e tem Roberval como um dos destaques: "Todos nós podemos ter a oportunidade de um novo começo e somos os protagonistas dessa mudança. A novela vai mostrar isso por meio da trajetória da Luzia [Giovanna Antonelli] e de outros personagens, como o Beto Falcão [Emílio Dantas] e o Roberval [Boliveira], cujas famílias também são muito importantes na trama."

Para o doutor em telenovela pela USP, Mauro Alencar, não é 'o número' de negros que fará da novela mais ou menos representativa e sim o contexto que estas tramas estarão inseridas: "Não é exatamente o número de personagens de um determinado biotipo que determinará o seu entorno; e sim a sua representatividade dentro da ação", explica Alencar, autor do livro, A Hollywood Brasileira - Panorama da Telenovela No Brasil, por e-mail com exclusividade para GERALDOPOST. Embora seja sim, cedo para qualquer análise aprofundada, o que se tem até o momento é sim a falta de negros. Na trama, além de Boliveira e Di Moura, estão Danilo Ferreira e Roberta Rodrigues. Não se pode deixar de comentar a presença de Nanda Costa e Roberto Bontempo, que são sim negros, porém com o tom de pele mais claro. Assim como se viu, até recentemente, em novelas em todas as faixas horárias: seis, sete e nove a falta de negros, além do servir a mesa e cama esteve inserida poucas vezes.

BLACK-FACE
Ruth de Souza e Sérgio Cardoso em cena da novela "A Cabana de Pai Tomás" (Foto: Teledramaturgia)
A TV Globo, esta como maior alvo das críticas pelo simples fato de ser a emissora de maior visibilidade e audiência do país, além de maior produtora de teledramaturgia, demorou pelo menos 45 anos para colocar uma atriz negra como protagonista de uma novela das nove. Foi em 2010, quando Taís Araújo interpretou Helena, protagonista da novela de Manoel Carlos, "Viver a Vida", ela já tinha sido cotada para o papel de Helena, mas estava fazendo "Da Cor do Pecado" (2004), também de João Emanuel Carneiro, na trama, Preta, era totalmente estigmatizada pela sensualidade, como dita o título da novela.

Ainda nos primórdios de sua história, na Globo a novela "Passo dos Ventos" (1968), era ambientada no Haiti e tinha como protagonistas Gloria Menezes e Carlos Alberto (1925-2007). O site Memória Globo, registra a trama e ressalta que um casal inter-racial causou polêmica. "O romance inter-racial entre Hanna (Djenane Machado) e Bienaimé (Jorge Coutinho) também gerou polêmica. O rumo dos personagens acabou sendo alterado e, no decorrer da história, Hanna se envolve com Marcel Chevalier, enquanto Bienaimé se casa com Tiana". No ano seguinte a emissora usou do recurso de black-face para colocar no ar a novela "A Cabana do Pai Tomás" (1969). Segundo o site Teledramaturgia a escalação de Sergio Cardoso, para o papel principal, foi uma imposição da Colgate-Palmolive, agência que patrocinava as novelas no Brasil, além de pintar o ator de 'preto' ainda colocavam rolhas no nariz, em cena uma imagem lamentável.

"Plínio Marcos chegou a comandar uma série de manifestações de repúdio à decisão através da sua coluna diária 'Navalha na Carne'",  explica o site de memórias da emissora. Ainda refém do patrocínio da Colgate-Palmolive e sem poder aquisitivo de dominar sua própria programação, a Globo tinha como diretora de telenovelas Glória Magadan (1920-2001) e dependia deste dinheiro, com a sucessão de erros de enredo e de tramas muito longe da realidade do brasileiro a emissora se viu obrigada a mudar tudo. Na Tupi, Beto Rockfeller (1969) de Braúlio Pedroso, inaugurou o que se faz até hoje em telenovela, diálogos coloquiais e tramas mais próximas da realidade do brasileiro (ou nem tanto).

ABSURDO

Núcleo Noronha na novela "A Próxima Vítima" (1995)
Em 1995, o autor Silvio de Abreu, hoje diretor de teledramaturgia da emissora, foi o primeiro novelista a colocar uma família negra longe dos afazeres domésticos e servindo a madame. Em "A Próxima Vítima", thriller paulistano que o autor escreveu no meio da década de 1990. A Família Noronha tinha como chefe da família Kleber Noronha (Antonio Pitanga), casado com Fátima Noronha (Zezé Motta), e tinham três filhos Sidney (Norton Nascimento), Jeferson (Lui Mendes) e Patrícia (Camila Pitanga), mas nem tudo foi flores. Sidney tinha como noiva Rosângela (Isabel Fillardis).

"A Próxima Vítima" não foi a primeira e nem a única em ter negros na classe média, em "Pecado Capital" (1975) Milton Gonçalves interpretou um psiquiatra, por exemplo, além de novelas como "Corpo a Corpo" (1984), "Mandala" (1987) e "Pedra Sobre Pedra" (1992), nesta última Aguinaldo Silva colocou o dedo na ferida e o racismo estava escancarado. O autor tinha total noção do que se esperava com a família de "negros de classe média", no roteiro pedia de forma clara que os atores se comportassem de forma. "Não estou atrás de polêmicas. Construí os Noronha com muito cuidado. Escolhi atores bonitos para interpretar os personagens e lhes recomendei que agissem em cena da maneira mais natural possível, como qualquer família de classe média", disse o novelista na época em entrevista ao TV Folha, do jornal Folha de S. Paulo (16/07/1995).

A Globo pediu que fizessem uma pesquisa sobre a aceitação da novela junto aos telespectadores e a aceitação foi confirmada por um grupo pequeno, de apenas 20 mulheres dividas em dois estados São Paulo e Rio de Janeiro. Em "A Próxima Vítima" e "Segundo Sol", pelo que se consta, o racismo velado ou racismo cordial, estará em pauta. Severo criou apena o filho branco, como legítimo, o negro ficou 'na senzala'. Mas na novela, de grande sucesso, de 1995, a Família Noronha não passou despercebida na análise mais detalhada, a falta de trama de preconceito explícito foi detalhado e falta da cultura afro, foram citados, assim como uma importante descrição: "reforça o que sempre soubemos: para conseguir aceitação social, o negro precisa se negar como negro", o presidente do Núcleo de Consciência Negra na USP, Fernando Conceição.

Diferentemente da trama de "Segundo Sol", onde Danilo Ferreira vai interpretar Acácio, professor de capoeira e líder e uma ocupação cultural em um casarão abandonado, na segunda fase da novela, sem data para ir ao ar, "A Próxima Vítima" foi criticada por mostrar negros embranquecidos: "Os Noronha comportam-se como uma família de brancos. Não sofrem preconceitos nem têm identidade étnica. Decoram a casa à maneira européia. Usam roupas e penteados que nunca remetem à cultura africana", explicou Fernando Conceição.

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