Ticker

6/recent/ticker-posts

Header Ads Widget

Responsive Advertisement

"Eu não temo a morte porque acredito que ela não existe", diz Solange Castro Neves coautora de 'A Viagem'


A novela A Viagem ganha sua quarta reprise a partir desta segunda (21) no Canal Viva. Escrita por Ivani Ribeiro e Solange Castro Neves, a trama de 1994, é um remake de 1973 de uma mega sucesso da TV Tupi. No enredo, original, a história de vida após a morte, com os personagens Alexandre (Guilherme Fontes), Diná (Christiane Torloni) e Otávio Jordão (Antonio Fagundes) e fez os livros espíritas registrarem aumento de vendas durante as duas exibições.

 

Solange Castro Neves foi a única colaboradora de Ivani, na renomada carreira de novelista. Embora não tenha sido creditada como deveria (seu nome aparece como colaboradora), o remake foi escalado às pressas pela Globo para estancar uma queda de audiência na faixa da sete. "'A Viagem' estreia amanhã na Globo com uma missão: recuperar o horário de 19h para tramas mais sérias do que os embates teens e as comédias de costumes que preencheram a faixa nos últimos meses", conta reportagem da Folha da véspera da estreia da novela.

Em entrevista ao jornal O Globo na época, Ivani foi questionada o que era mais importante 'mostrar a luta do bem contra o mal ou o tema da vida após a morte': "O tema da vida após a morte. Estamos vendo em um mundo muito violento. Abordar um tema como este traz paz a quem assiste à novela. Eu acho este tema muito importante", respondeu segundo reportagem disponibilizada no Acervo do jornal. GERALDOPOST procurou a coautora da novela, Solange Castro Neves, 26 anos depois para falar sobre a trama e fez esta mesma pergunta: "Os dois. O tema central da trama é a Vida após a Morte, mostrando a eterna luta entre o bem e o mal."

Leia também
Análise: A Viagem um sucesso inesquecível, por Marcelo Rissato

Baseada na Doutrína Espírita de Allan Kardec, a novela promoveu em 1993 uma explosão de venda de livros desta temática no ano de sua exibição. Segundo pesquisa do Datafolha, na Bienal do Livro de 1994, o livro "O Livro dos Espíritos", de Allan Kardec, "foi apontado como o quarto mais lido. Kardec, mentor da religião, ficou atrás apenas de Paulo Coelho e Fernando Morais", segundo reportagem da Folha. A reportagem relata ainda que livrarias registraram um aumento de 50% nas vendas, assim como em 1975, segundo Ivani na época: "Foi tudo exatamente igual".

Escalada às pressas, em um horário improvável, às 19h, para estancar q queda da audiência que a Globo passava, na época, o remake foi ao ar no ano seguinte de Mulheres de Areia, também de Ivani Ribeiro e Solange Castro Neves, única colaboradora de Ivani que durante foi creditada equivocadamente como colaboradora. "Nas três últimas novelas da Ivani, a sua saúde ficou muito limitada e, automaticamente, passei à colaboradora e co-autora", conta Neves. "O rótulo, para mim, nunca foi importante, a nossa vivência e o amor que nos unia era muito maior que isso", completa a autora.

Solange conta que teve que esticar a novela em 28 capítulos, já que Quatro por Quatro (de Carlos Lombardi) não ficou pronta à tempo. "Tive de acrescentar mais 28 capítulos, porque a próxima novela não estava pronta para substituir. A cada novela ficam muitas lembranças, mas um dia poderemos falar sobre elas", lembra.

LEIA A ENTREVISTA:


GERALDOPOST: Você foi a única colaboradora de Ivani Ribeiro, mas em A Viagem foi co-autora, não creditada, como recebeu o convite para escrever a novela?
SOLANGE CASTRO NEVES:
Eu trabalhei com a Ivani por 14 anos. Quando ela me chamou para ajudá-la, eu estava colaborando com o Cassiano Gabus Mendes e foi assim que tudo começou. Tive o privilégio de aprender com esses dois mestres da dramaturgia e através dos seus estilos e carpintaria diferentes transitei por muitos anos. Tenho muita gratidão. Nas três últimas novelas da Ivani, a sua saúde ficou muito limitada e, automaticamente, passei à colaboradora e co-autora. O rótulo, para mim, nunca foi importante, a nossa vivência e o amor que nos unia era muito maior que isso. 

GERALDOPOST: A Ivani era espírita, logo boa conhecedora do espiritismo, como você se preparou para escrever a trama?
SOLANGE C. NEVES:
Sou espiritualista. Nasci e fui criada no catolicismo, fui batizada, crismada, mas como eterna buscadora e sempre com uma imensa ânsia de saber, tornei-me uma estudiosa e segui a frase de JESUS: 'Na casa de meu Pai há muitas moradas'. Comecei a estudar as diversas religiões e aprendi a respeitar a crença e a fé de cada um.

GERALDOPOST: Uma pergunta voltada mais aos bastidores, o que lembra da escalação do elenco?
SOLANGE C. NEVES:
A escalação de elenco depende de vários fatores. A produção, os diretores, a disponibilidade dos atores e outras problemas envolvem o casting. Quando escrevo, procuro não imaginar quem vai ser o ator que vai representar o personagem. Apenas algumas vezes, lutei muito na escolha das atrizes por não ver outras que se encaixassem tão bem no perfil de protagonista. A primeira vêz foi na novela Brega e Chique que insisti e corri atrás para trazer a Marília Pera que, na época, era do teatro. Com a Gloria Pires foi a mesma batalha, pois quando cogitamos fazer o remake de Mulheres de Areia, ela tinha acabado de ter nenê. E n'A Viagem eu sonhava trabalhar de novo com a Cristiane Torloni com quem havia estado antes em A gata comeu. Ela estava morando em Portugal. Raul Cortez, que se tornou uma amigo muito especial e que fez maravilhosamente o Dr. Virgilio. Marcos Frota me encantou no teste como Tonho Da Lua. Felizmente todos eles abrilhantaram seus personagens que se tornaram um marco na dramaturgia.

GERALDOPOST: Segundo reportagem da Folha, 'O Livro dos espíritos', de Allan Kardec, foi o quarto mais lido pelo público da Bienal do Livro daquele ano. Uma peça foi produzida com o tema do 'espiritismo' e um programa espírita entrou no ar na Rede Mulher. Como avalia esse sucesso?
SOLANGE C. NEVES:
O ser humano é sedento de perguntas sem respostas e através da espiritualidade, ele começa a se conhecer e descobrir que a vida é a continuação de uma longa história. E é através da Justiça Divina que tudo tem uma razão de ser. Nada é por acaso, essa é a lei da Causa e do Efeito. Ao entendermos que a morte não existe, que é apenas uma Viagem de Ida e Volta, perdemos o medo da morte. A vida é uma grande escola e estamos aqui para aprendermos. Todos nós, entretanto, temos o Livre Arbítrio e, portanto, somos responsáveis por nossas escolhas.

GERALDOPOST: É verdade que a novela foi feita em 20 dias? Como foi isso?
SOLANGE C. NEVES:
Não é verdade. A decisão de fazer o remake foi rápida, mas elaborar uma sinopse unindo duas novelas antigas, A viagem e o Espantalho, é um trabalho artesanal. Precisa tecer uma tapeçaria com toda gama de emoções, unir todos os fios soltos. Eu brinco com meus alunos que o trabalho de roteirista não tem glamour, é solitário. A pessoa tem de ter muita saúde, determinação, equilíbrio emocional, conhecer a técnica da escrita e saber voar nas asas da imaginação. Quem não conhece pensa que novela é uma obra fechada quando é o contrário, o escritor tem que escrever 6 capítulos por semana durante 6 ou 8 meses. Para terem uma ideia, quando estava escrevendo Marcas da Paixão, na Record, meu pai veio a falecer. Eu o enterrei às 11 horas, em Araçatuba, interior de SP. Era uma das pessoas que eu mais amava. Às 7 horas da noite, eu já estava em SP, atrás do meu computador. A Ivani, minha mestra, me ensinou: 'Ninguém tem nada a ver com seus problemas, coloca um sorriso nos lábios, abre a janela do seu escritório, respire fundo e voe.'

GERALDOPOST: O que é mais importante na novela: mostrar a luta do bem contra o mal ou o tema da vida após a morte?
SOLANGE C. NEVES:
Os dois. O tema central da trama é a Vida após a Morte, mostrando a eterna luta entre o bem e o mal. Logo vocês terão uma surpresa. Vem vindo ai A VIDA após a VIDA ou seja a volta dos espíritos ao planeta Terra.  

GERALDOPOST: A morte é muito debatida, "Bom Sucesso" (recentemente) e em breve outra trama das sete vai abordá-la. Em 2020, devido a pandemia e as mais de 180 mil vítimas. Você tem medo da morte?
SOLANGE C. NEVES: Não eu não temo a morte porque acredito que ela não existe. É apenas uma passagem para outra dimensão ou, como falam, também a volta à casa do Pai.

GERALDOPOST: Entre algumas adaptações, entre a trama de 75 e 94, estão os nomes dos personagens, alguns foram alterados. O que mais mudou entre as duas produções?
SOLANGE C. NEVES:
Em primeiro lugar o tempo, a vida é movimento e a diferença de uma para a outra foi de 20 anos. Outro fator importante é que quem escreve coloca sempre um pouquinho de si em cada personagem. A Ivani brincava dizendo que a Diná da Cristiane era minha, como o Tonho da Lua e vários outros. Isso é normal, não tem muito como fugir de suas próprias vivências ao fazermos um diálogo ou mesmo o perfil de cada personagem. Um remake é muito mais difícil de fazer e dar certo do que uma trama inédita. Ao mesmo tempo que não podemos fugir da espinha dorsal da trama, temos a difícil tarefa de dar vida a personagens com outros atores que se tornaram sucesso de público e crítica. A comparação entre eles é inevitável e só da certo quando o ator, o diretor e o escritor encontrarem o mesmo caminho para que esse possa trilhar surpreendendo o público que, só então, aceita o novo ator, sem perder o respeito pelo antigo.

GERALDOPOST: Na época, você chegou a comemorar "Graças a Deus não teve barriga" (Folha) e em uma entrevista recente você disse que guarda anotações da época, o que poderia compartilhar com a gente?
SOLANGE C. NEVES:
Barriga é um termo que usamos para dizer que a novela está enrolando o público por não  apresentar, suspenses, ações, viradas na trama. Lembro-me de que falei isso porque em A Viagem, tive de acrescentar mais 28 capítulos, porque a próxima novela não estava pronta para substituir. A cada novela ficam muitas lembranças, mas um dia poderemos falar sobre elas.

GERALDOPOST: Uma personagem que não estava no original (de 75) foi Sofia (Roberta Indio do Brasil), é verdade que a Globo queria personagens jovens na trama?
SOLANGE C. NEVES:
A Sofia fazia parte do núcleo da vila, e morava na pensão de Dona Cininha, a grande atriz Nair Belo. Toda trama tem vários núcleos e os jovens abrilhantaram com o conjunto musical, suas alegrias, seus amores. Junto estava o Irving São Paulo a Cris Pitty e outros que trouxeram momentos de alegria à história. 

GERALDOPOST: Tibério (Ary Fontoura) fala com seu anjo da guarda, mistura muito humor, poderia falar melhor sobre o personagem? 
SOLANGE C. NEVES: Ary Fontoura encantou a todos com seu personagem o Tibério. Ele era médium e tinha o dom de ouvir os espíritos. Com sua maneira sábia, dosou tudo com muito humor. É um grande ator, homem muito especial. Já tinha trabalhado com ele em Amor com Amor se paga. Ele é magistral!

GERALDOPOST: Ivani disse em entrevista ao Globo, na época, que é natural o remake. Qual remake você gostaria de fazer ou gostaria de ter feito?
SOLANGE C. NEVES:
Tem vários, pois Ivani era uma grande contadora de histórias. Uma que gostaria de fazer seria as Bruxas, cujo tema era sobre  terapia de alma com jovens. Poderia ser também o Cavalo Amarelo; a Deusa Vencida.

BATE-PAPO COM O PÚBLICO

A autora Solange Castro Neves aceitou um convite de GERALDOPOST para responder dúvidas e curiosidades do público sobre a novela - mande sua pergunta para geraldo@geraldopost.com ou através do formulário de contato ao lado, colocando Nome, Idade e Cidade/Estado.

Postar um comentário

0 Comentários